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O elã da trama

A exposição o elã da trama celebra a quinta edição da revista Art Dialogues em parceria com o Apartamento 61. Com curadoria de Anita Goes, Mariane Beline e Iara Pimenta, a  coletiva examina a relação entre o têxtil, o corpo, a memória e as narrativas a partir de obras dos artistas Alexandre dos  Anjos, André Azevedo, Cícero Costa, Fabiana Preti, Luiz  Escañuela, Gabriel Pessoto, Jala e Paola Muller em colaboração  com Taty Takasse. As obras de arte são acompanhadas pela  curadoria de design conduzida por Vivian Lobato e André  Visockis, focada em sustentabilidade e preservação cultural,  com peças de Guilherme Wentz, Guá Arquitetura, Pirilampos  do Planeta, Renata Meirelles e Treivas Architecture Bureau. 

Os têxteis são fundamentais em nossas vidas desde o nascimento, conectando-nos a diferentes tempos e lugares por meio da cultura material. Historicamente associados ao corpo e à  vida cotidiana, os tecidos moldam nossos ambientes por meio  de objetos e elementos arquitetônicos. Partindo dessa relação, a exposição considera como os têxteis refletem a condição  humana em diferentes culturas e evocam intimidade, cuidado e  experiências sensoriais.  

A fiação e o tecer também elucidam narrativas que perpassam  a humanidade e figuram em mitologias, como na destreza técnica na tecelagem de Aracne, que a colocou em duelo com Atena, culminando no castigo terrível de sua transformação em aranha, condenada a tecer eternamente. Outro mito é o de Penélope, esposa de Ulisses, que aciona a força do feminino ao articular o tempo a partir do tear, astutamente condicionando  seu destino ao gesto de tecer. Pela ação de tecer durante o dia e desmanchar durante a noite, Penélope sustenta o tempo a  partir de sua ação ativa, gesto potente que percebemos em cada  um dos artistas presentes na mostra. 

Na obra de Alexandre dos Anjos, o corpo é central, atravessado por dimensões espirituais, políticas e performáticas que se  manifestam na interseção entre o carnaval e a cultura afrodias pórica. Com influência da moda, o artista articula identidade,  magia e alegorias por meio de uma colagem de materiais como  metal, cerâmica, couro e bordado, conectando o sagrado ao terreno em obras como Serpente/Serafim (2021) e aprofundando investigações ritualísticas em Costeiro Adjá – Oxum,  Exú e Ogum (2024).  

O carnaval e a cultura popular brasileira também permeiam a  prática de Jala, que, a partir de uma abordagem escultórica do corpo, cria objetos e instalações que exploram seu potencial mágico e transformador. Com materiais como látex, tule e metais, e por meio de vestimentas, performances e narrativas,  a artista constrói universos visuais vibrantes, nos quais seus  adereços — marcados por formas circulares e múltiplas argolas — instauram novas realidades para os corpos que os vestem. As práticas têxteis servem como ferramentas para narrativa, resistência e continuidade cultural na arte contemporânea e na cultura visual. 

André Azevedo é interessado na percepção do mundo a partir da  matéria. Ao compreender uma associação entre tecido e texto,  identificação também realizada por Roland Barthes e Anni Albers, Azevedo investiga plasticamente as palavras a partir de seu encontro com o têxtil. Por meio de processos manuais e do uso de máquinas de costura e de escrever, assim como de seus compo nentes — como as fitas e o papel carbono —, o artista cria obras com composições abstratas e figurativas em que a trama e a linha  tem papel central. Na série Datilográfica, por exemplo, imagens  são criadas a partir da repetição de elementos tipográficos da  máquina de escrever pintando a trama do tecido. Na obra Texto Têxtil (2026), presente na exposição, o artista replica formas  geométricas e as palavras texto e têxtil, criando uma combinação  instigante de imagem e poesia visual. 

 

Repetição e decodificação gráfica a partir da trama também são exploradas na obra de Fabiana Preti. Baseada na estrutura do tecido e nas relações entre cheios e vazios em talagarça e em tela de mosquiteiro, Preti elabora composições geométricas na  série Borboletário. Inspirada em cores de borboletas, a artista  cria elementos gráficos que se repetem e se combinam na tela,  cujos ritmo e composição promovem a sensação de movimento dos voos desses insetos. Nessa série, a artista também lida com  diferentes escalas. Enquanto duas de suas obras na exposição estão em formato médio, o que nos permite uma conexão corpórea mais próxima tanto na composição com rosas  vibrantes quanto com brancos e cremes, uma terceira obra  chama a atenção por sua escala espacial, estendendo-se da  parede ao chão, acentuando o movimento dos elementos  gráficos e a relação entre as cores. 

As tramas e as estruturas de produção de bordados e tapeçarias também aparecem na obra de Gabriel Pessoto. Em objetos e esculturas que trazem imagens do cotidiano, tanto do ambiente  doméstico quanto da paisagem natural, o artista combina técnicas e visualidades digitais e artesanais, de modo a refletir  sobre a digitalização da cultura contemporânea, memória, formação de desejos e intimidade. Combinando diferentes  mídias e tempos, em que a trama artesanal se aproxima do pixel, as obras apresentam imagens em uma figuração quase  abstrata, de uma percepção de imagem digital de baixa resolução, que expõem como se dá a construção dessa imagem. Em Jardim (2024), três esculturas verticais como tótens nos transportam a um ambiente recorrente e familiar da tapeçaria em espaço doméstico e sua associação com motivos botânicos com cores e composições vintage. Já em Acessório 1/Handjob (2024), o objeto em formato de luva térmica bordada com  motivos de cozinha é tensionado pelo título e pela conotação também sexual do termo “handjob”. 

As fotografias, objetos e instalações de Cícero Costa exploram, fundamentalmente, questões de memória a partir de suas  vivências e experiências cotidianas, compondo, de forma  poética, seu olhar sobre a cidade de São Paulo. Também  celebram seus familiares, principalmente seus pais, motivo  recorrente em suas obras. Na exposição, Avental de trabalho da minha mãe (2019), uma instalação composta pela vestimenta  de sua mãe pendurada na parede, é acompanhada por uma  fotografia dela no trabalho de vendas de roupas no Brás, em São Paulo. Juntas, essas obras nos levam ao centro de questões  como identidade, trabalho, cuidado e memória a partir de uma  perspectiva pessoal e afetuosa. 

A obra de Luiz Escañuela relaciona corpo, paisagem, cartografia e política. Ao aproximar a representação do território da  pele e das vísceras, o artista explora a topografia de mapas como se fossem órgãos, conferindo-lhes materialidade humana. Ao elaborar analogias entre o corpo e a geologia,  aplicadas a desenhos cartográficos, o artista cria obras ricas em  texturas e cores, como rosas e vermelhos. Elementos em  cerâmica fria indicam o desenho e os relevos deste espaço,  mas, principalmente, como o território aí representado foi  transformado por diversas pessoas ao longo da história. Em  “Coreografia Encarnada da Capitania de S. Paulo”, Escañuela utiliza um mapa de 1792 e o transforma de modo a indicar  mudanças fundamentais realizadas por bandeirantes e  tropeiros que marcaram para sempre aquele território. A conexão com memória e história também está presente nos  materiais do trabalho, já que todos são reutilizados, como a  lona de 10 anos, que serve de base para a obra, além do  vergalhão e dos ganchos de açougue que a sustentam. 

A paisagem natural também é fonte de inspiração para os  objetos, tapetes, mantas e estofados em tricô de Paola Muller. A artista traz sua experiência com a moda, alinhando design à  conexão entre corpo e espaço. Em suas obras, ela experimenta  com formatos orgânicos, cores e texturas que conectam os  sentidos visual e tátil. Na obra Pororoca (2025), feita em  parceria com Taty Takasse, as artistas trazem a força e o encantamento do encontro do mar com o rio neste fenômeno natural amazônico, reforçando o movimento das águas e a  relação entre os azuis e marrons na base de tricô com intervenções em bordados feitos à mão. 

 

O elã da trama traz também mobiliários e objetos que, juntos, compõem os ambientes expositivos do Apartamento 61. O banco Guêra, por exemplo, do escritório paraense Guá Arquite tura, tem sua estrutura produzida por mestres artesãos com madeira rejeitada pela indústria tradicional e assento feito por  mulheres seringueiras em látex natural e algodão amazônicos. Já a cadeira Naia, criada em parceria entre Guá Arquitetura e  Pirilampos do Planeta, é feita com resíduos da indústria têxtil,  como jeans, tecidos e tapetes. 

A exposição articula questões contemporâneas a partir da prática  dos artistas e designers, evocando um entrelaçamento com o ambiente a partir dos mobiliários e das inserções da vida no  cotidiano. O têxtil é imbricado na poética do ordinário e a expografia reflete esse pensamento, projetando-se para além do cubo branco. o elã da trama ocupa uma casa em todas as suas particularidades e transforma o espaço em tramas matéricas.  

Anita Goes, Mariane Beline e Iara Pimenta

Maio de 2026

Gabriel Pessoto Artista Visual Arte Contemporânea Arte Digital Tapeçaria Arte Têxtil

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