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Gabriel Pessoto, Vista da exposição um pouco por dia já é muito, 2018. Casa da Luz, São Paulo.

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Gabriel Pessoto, roupa de cama, 2018. Colcha de retalhos de papel coletados em revistas/manuais de tricô. Dimensão variável. Vista da exposição “um pouco por dia já é muito”, Casa da Luz, São Paulo

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Gabriel Pessoto, Vista da exposição um pouco por dia já é muito, 2018. Casa da Luz, São Paulo.

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Gabriel Pessoto, Vistas da exposição um pouco por dia já é muito, 2018. Casa da Luz, São Paulo.

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Gabriel Pessoto, repositório: um pouco por dia já é muito, 2018. crayon e lápis de cor sobre papel, 267x178 cm

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Gabriel Pessoto, cybersexo, 2018. cetim, 68x63cm. Vista da exposição “um pouco por dia já é muito”, Casa da Luz, São Paulo.

Gabriel Pessoto, segunda pele, 2018. vídeo, mudo, loop

Gabriel Pessotohomenagem, 2018. vídeo, mudo, loop

     Uma colcha de retalhos se espalha pelo chão, aparentemente buscando cobrir o espaço. Uma composição em forma de grade se estende na parede, articulando imagens de diversas procedências, como na criação de uma constelação de trocas afetivas. Um vídeo, aparentemente estático, nos revela ao nos aproximarmos movimentos dentro do seus campos de cor, nos fazendo questionar as suas procedências. Nas paredes, também se estendem tecidos, em um jogo certeiro entre a história das paredes e arquitetura do espaço expositivo e a sua relação com aquelas composições. Estes movimentos de aquecimento, de acolhimento, de domesticidade, são alguns dos traços característicos da produção de Gabriel Pessoto, aqui apresentados em sua primeira individual em São Paulo, onde o artista busca relacionar a sua prática, que circunda as linguagens do filme, desenho e escultura, a partir de fragmentos de uma intensa pesquisa e coleção de imagens, na Casa da Luz.
     Ocupando a maior parede da galeria, o trabalho repositório: um pouco por dia já é muito, que dá título à exposição, nos apresenta uma constelação e uma visão única sobre os procedimentos e as referências que circundam a prática do artista. Nele, Pessoto flutua da consagrada forma moderna do grid, da grade, trazendo à esta técnica um espaço de domesticidade familiar e afetiva. Montanhas, naturezas-mortas, stills de vídeos pornôs são apenas algumas das dezenas de imagens que o artista elenca para trazer ao espaço uma manifestação única de rimas visuais. Este movimento, quase como uma respiração, que flutua do mais privado ao mais público em sua representação, se apresenta para nós, aqui, como uma grande rede de imagens, uma colcha de retalhos em cinza e rosa, que nos leva ao íntimo de sua expressão.
     Presente também nas outras composições da exposição, a forma da grade tem para Pessoto um espaço caro e afetivo: elas são interpretações de uma peça familiar, uma colcha feita por sua avó, que aqui se desdobra em diversos materiais e linguagens, do papel ao vídeo, emanando uma específica aura de carinho. No vídeo Segunda Pele, um fragmento de uma instrução de bordado se torna uma manifestação de campos de cor, aqui, em realidade, recortes de peles de vídeos pornográficos encontrados pela internet. Essa prática, de desdobrar um ambiente tradicional, intercalando sua forma com um conteúdo que não seria automaticamente associado a ele, nos faz questionar os reais espaços onde as imagens habitam hoje, e qual o valor de suas ressignificações e deslocamentos. A colcha também, mais uma vez, se apresenta, agora em Roupa de Cama, onde a emulação de uma colcha se dá a partir da sua apropriação e ressignificação, aqui não mais no tecido, mas no papel, uma prova clara do movimento que o artista faz na transposição de suas referências a diversos suportes artísticos. Também é de se notar a série de desenhos Manhã Seguinte, onde Gabriel efetiva, em grafite, diversas visões e variações sobre uma colcha que flutua sobre uma cama invisível, trazendo, em um só movimento, relações de afeto e sexualidade.
     Ao observar o trabalho de Pessoto, uma tônica não me abandona: a de que a construção de um ambiente de afeto é uma tarefa árdua, mas não impossível, e que dentro das diversas significações que as relações, familiares ou amorosas e as possibilidades de trocas íntimas tem, elas encontram, dentro do espaço da articulação artística, um lugar de excelência para sua construção.

Guilherme Teixeira . julho de 2018