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O ir e vir das imagens

(Texto escrito para a publicação "Trocando figurinhas: 01 - 500", 2022)

 

Colecionar e trocar figurinhas fez parte da infância de muita gente: não só nos álbuns, completando páginas com times de futebol ou elencos de desenhos animados, mas também em embalagens de chocolates, jogos de cartas e outras quinquilharias, as pequenas imagens impressas traziam fragmentos do mundo para mais perto e serviam como matéria-prima da imaginação.

Trocando figurinhas, obra-processo de Gabriel Pessoto e Nicole Kouts, é regida pelo mesmo princípio. Mantidos em casa pela pandemia, os dois artistas criaram uma espécie de diálogo por imagens, onde, diariamente, um deles responde com uma figurinha à figurinha que o outro postou no dia anterior. O desenvolvimento da obra, sem outras regras além da resposta diária e do uso do mesmo formato de imagens, criou, ao longo desses dois anos, seu próprio código, no qual a livre associação explora analogias visuais e ecos concepto-formais de uma figura a outra, como se a adição de sempre mais uma imagem aumentasse as chances de darmos sentido à experiência da passagem do tempo no isolamento do mundo imposto pela quarentena. Distante de sua ação dispersora, o tempo aqui torna-se vetor de uma acumulação que explora a dimensão positivamente improdutiva da comunicação e leva Pessoto e Kouts a avançar juntos rumo a uma coleção sem limites. 

Desse modo, Trocando figurinhas configura-se como um escape poético, abrindo frestas lúdicas na produção de sentido que organiza nosso cotidiano. Como uma escrita automática desobrigada da sintaxe, a obra avança sem buscar conquistar saberes sólidos e solenes, mas desvelar novas relações visuais e novos campos de jogo. A disposição das imagens em colunas, no tumblr do projeto, ressalta sua dimensão dialógica, permitindo restaurar os avanços dessa espécie de coreografia de gestos intercalados, onde as séries de cada um se entrecruzam como num diário a dois. Desviando-se dos enunciados apocalípticos que nos convocam a enfrentar o excesso contemporâneo das imagens de modo iconoclasta a fim de zelar pela nossa integridade imaginária, a ação de Pessoto e Kouts remete à Internet do passado, mais livre e menos comercial, com imagens menos padronizadas pelo marketing. Com isso, a dupla elabora o que poderíamos chamar de uma pequena ética cotidiana do afeto, toda fundada na interlocução interessada – etiqueta que compensa as distâncias e ajuda a tolerar os excessos do tempo presente e sua estridência destrutiva. 

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Gabriel Bogossian

março de 2022

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