O paraíso dos marrecos

(Exposição coletiva "O paraíso dos Marrecos", 2022. Residência Fonte, São Paulo, SP)

O título desta exposição, O paraíso do Marrecos, foi extraído de uma crônica de João do Rio publicada em 5 junho de 1903 na Gazeta de Notícias. Nela, o escritor enaltece a recém-inaugurada iluminação do Passeio Público da cidade do Rio de Janeiro, contrapondo a claridade do parque às “escuríssimas alamedas do velho Campo de Sant’Anna”, onde “as árvores, as boas e castas árvores, já devem estar escandalizadas com o que distintamente ouvem e com o que vagamente avistam à noite”. Com a ironia que lhe é própria, João do Rio conclui: “No passeio público, os palmípedes já se vão habituando ao movimento, à música e à luz. Mas, no Parque da República, as alamedas ainda são o paraíso dos marrecos... e de outros animais de mais tino e de menos inocência”.

Esta visão moralmente positiva do projeto de modernização da cidade do Rio de Janeiro não predomina no conjunto da obra de João do Rio, que diagnosticou importantes paradoxos da modernidade à brasileira. Para além do elogio das luzes, interessa-nos, na crônica em questão, os indícios da familiaridade do escritor, sabidamente homossexual, com o bas-fond carioca do começo do século. Através de seus escritos, João do Rio testemunhou a implementação heterogênea e desigual de um projeto de modernização no Brasil, e seus efeitos na criação de zonas de luz e de sombra no espaço urbano, caracterizadas, respectivamente, pelas contenções impostas pelo projeto civilizador e pela livre circulação do desejo e dos corpos que não cabiam em tal projeto. A vida e a obra do dândi tropical oferecem pistas interessantes para transitarmos pelas poéticas aqui reunidas. A possibilidade de pensarmos masculinidades e homoafetividades no plural relaciona-se, no contexto da exposição, com uma reunião de poéticas que flertam com o gesto do cronista, que cria sua obra ancorado na efemeridade dos acontecimentos vividos e na combinação, em doses variadas, de realidade e ficção, fornecendo instantâneos de uma realidade que é, ao mesmo tempo, individual e coletiva.

Embora permeie grande parte das obras aqui reunidas, a infiltração do gênero e da sexualidade no quotidiano pode ser nitidamente observada, com sua carga erótica e sexopolítica, nas pinturas de Adriel Visoto e Fefa Lins. A paleta, a escala e pictorialidade das imagens de Visoto acabam por equalizar a circulação do desejo voyeurístico entre as diferentes cenas de leitura e a de masturbação, desarticulando as modulações hegemônicas do desejo. Fefa Lins, por sua vez, pinta cenas que, a despeito de sua quotidianidade, foram raramente representadas e, por consequência, permanecem à margem do imaginário da masculinidade.

Tal imaginário acerca de como ser homem é forjado desde a mais tenra infância. O trabalho de Bruno Novaes ancora-se nas interdições feitas aos meninos em relação a determinados signos (a cor rosa, por exemplo), e nas estratégias infantis para driblar tais interdições, ou negociar com elas. As performances e fotografias de Tales Frey alimentam-se das tensões que resultam da permanência desta normatividade ao longo de toda a vida e por diferentes espaços sociais. Sob a performatividade da masculinidade hegemônica, entretanto, também podemos localizar as ambiguidades do desejo homoerótico interditado. As poéticas de Marcelo Amorim e Élcio Miazaki orbitam ambientes e instituições predominantemente ocupados por corpos masculinos que, em seus próprios rituais de funcionamento, descortinam, sob a convivência entre iguais, a imagem fugidia do tesão entre homens. As cenas de iniciação das fraternidades do contexto universitário norte-americano inspiram a grande tela de Amorim, ao passo que a vida nas casernas, outra importante categoria da pornografia gay, encontra-se no cerne da pesquisa de Élcio Miazaki.

A conciliação entre o desejo homoafetivo, muitas vezes informado pela pornografia mainstream, e os signos - singelos e proibidos - do romantismo, dito feminino, estrutura a pesquisa de Gabriel Pessoto que, em seus vídeos e objetos, apropria-se de técnicas e materiais associados ao lar e ao enxoval e de material pornográfico, produzindo obras que condensam a tensão resultante desta paradoxal educação sentimental. A obra de Matheus Chiaratti também pode ser pensada neste sentido: o trabalho nasce do encontro do artista com (a)casos eróticos, uma série de bordados de Rivane Neuenschwander, e se configura como uma homenagem/obsessão na qual podemos (entre)ver falos voadores que remetem às rupestres inscrições dos banheiros públicos.

Ser homem e ser gay são apenas dois marcadores, em meio a muitos outros, que nos inscrevem no mundo social e que nos posicionam política e afetivamente diante da vida. Ser cis ou trans, negro ou branco, pobre ou rico resulta em uma infinidade de configurações possíveis para a masculinidade. No contexto brasileiro, colonial e racista, os trabalhos de Rafael RG, Márcio Junqueira e Rafael Amorim, oferecem narrativas da homoafetividade que se desdobram em outros territórios e oferecem um contraponto ao monopólio destas discussões pela branquitude. A pesquisa de RG em torno das memórias do primeiro beijo foi realizada com pessoas LGBTQI+ com mais de 50 anos, de diferentes regiões do Maranhão, o desenho sobre passagem rodoviária de Junqueira integra seu projeto @diario_de_pegação, que pode ser visto na íntegra no instagram e, também Rafael Amorim obras que nascem de sua própria jornada afetiva, ancorada territorialmente na periferia da cidade do Rio de Janeiro.

Os aplicativos de pegação, a pornografia a um clique, a crítica contrassexual da masculinidade falocentrada e o reconhecimento de marcadores sociais como raça e classe como imprescindíveis para situar masculinidades e homoafetividades são apenas alguns dos fenômenos que aparecem na crônica fragmentada de nossa época. O paraíso dos marrecos reúne pinturas, desenhos, vídeos, fotografias e instalações que nos ajudam a compor o retrato de nosso tempo, mas procura fazer isto sem iluminar as vias por onde circulam os corpos e os afetos dissidentes.

 

Ícaro Ferraz Vidal Jr.

Maio de 2022

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vistas da exposição Paraíso dos Marrecos, 2022. Residência Fonte, São Paulo, SP. Fotos: Élcio Miazaki.