A prática artística de Gabriel Pessoto propõe o encontro entre repertórios e materiais diversos, de temporalidades distintas, por meio de operações que não raro perpassam a costura (a mão) e a edição (digital).

O díptico de vídeos Homenagem e Segunda Pele (2018), presentes nesta mostra, aborda acepções de intimidade e esfera doméstica usualmente tratadas como dissonantes. Em Homenagem, o ambiente seguro (da memória afetiva) representado por uma receita tradicional de bordado com temática floral é sutilmente interpelado por um perímetro tracejado que, ao invés de destacar um dos elementos mais claramente reconhecíveis da composição (as três flores), prefere delimitar um espaço-entre, que se torna praticamente abstrato ao ser isolado da composição.

Cabe a Segunda Pele a reelaboração do trecho selecionado. O padrão anteriormente familiar ganha movimento, elucidando o caráter da mídia (o vídeo), e estabelecendo-se uma correspondência entre o ponto-cruz, o vídeo e o pixel como unidade de composição.

A confecção da trama digital segundo a mesma trama do bordado traz consigo noções de método e repetição, além de servir de suporte para os vídeos provenientes do banco de dados do artista. Este bordado digital acrescenta uma outra dimensão de intimidade, anônima e advinda de vídeos pornográficos e possivelmente caseiros, capturados na internet.

O díptico desencadeia uma imagem dentro da imagem e nos força e mergulhar na noção – idealizada ou não – de intimidade, ao costurar o ideal romântico de amor (e sobretudo, de família) com o seu avesso inerente, erótico.

 

Diego Mauro

Julho de 2022

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Segunda Pele + Homenagem, 2018. Díptico em vídeo. Vista da exposição Ópera Citoplasmática, 2022. MON - Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, PR.

Vista da exposição Ópera Citoplasmática, 2022. MON - Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, PR.