procedimento, apropriação, ruptura: contra-arquivo em esquecimento

(texto escrito para a publicação "Ambiente Moderno" em 2021)

O pedido em torno da escrita deste texto se dá a partir de uma primeira conversa com Gabriel Pessoto, onde, em sua fala, escuto uma passagem que muito me toca: o artista me conta sobre uma trajetória pessoal na qual existiria uma ausência de referência de imagens íntimas e afetivas entre pessoas fora do registro da heteronorma. Isso uma vez que lhe parece a pornografia o único lugar onde esse tipo de imagem se manifesta. Ao mesmo tempo neste campo haveria, para ele, algum descolamento entre afeto e sexo. Esta breve conversa nos circunscreve e nos aproxima, criando pontos de contato onde uma dimensão comum emerge.

Talvez este pedido se dê em uma temporalidade outra, como a dimensão performativa adentrada por Gabriel quando se propõe a seguir instruções de antigas revistas de costura destinadas a mulheres que manufaturavam o seu próprio enxoval de casamento. Mas aqui, o ritual de preparação para o acasalamento acontece em um registro outro, onde tecido pode ser papel, ponto cruz pode ser pixel, e, principalmente, tornar-se, ser e fazer podem, efetivamente, ser desfazer e violar.

Partir deste tipo de memória e material, que não deixa de ser um arquivo, me faz pensar em um funcionamento arquivista delineado por Jacques Derrida: enquanto algo topológico, no que se refere ao lugar, também ao lar, e nomológico, que se liga à ideia de lei e de autoridade. A vida romântica e afetiva ilustrada pelas imagens contidas nessas revistas designa um tipo específico de modelo familiar, também de intimidade, inscritos em um espaço doméstico e conjugal heterociscentrado. Os procedimentos, as apropriações e as rupturas propostos por Gabriel Pessoto exercem uma recusa ativa. Pode-se dizer que de alguma forma rejeitam a maestria em nome de uma ideia de fracasso, nos moldes indicados por Jack Halberstam.

Derrida analisou precisamente as dificuldades de arquivar, acreditando ser o arquivo um mal de arquivo. Ou seja, algo que está sempre sendo assombrado por espectralidade, por apagamento. Quando falo aqui em memória, não se trata de lembranças que se ligam a evidências concretas, mas a genealogias fraturadas. Vejo as obras, imagens e narrativas criadas pelo artista como possibilidades de fazer circular um arquivo outro, um conjunto de ideias de fracasso que, como dito anteriormente, se contrapõem à oposição binária e infernal, perpetrada pelo capitalismo global, entre o éthos de perdedor e o sucesso associado ao lucro a todo custo (que também se liga a noções de disciplina e controle). Afinal, quem está perdendo algo?

Pessoas queer, ou dissidentes do sistema sexo/gênero, ou sujeitos situados além da heteronorma, são frequentemente colocados ao lado da estranheza, da falta e também do fracasso (em seu significado hegemônico). Vale lembrar que pessoas queer também inspiram coletividade, com seus conjuntos de tecnologias capazes de ativarem outros modos de vida. Muitas vezes, inclusive, pensando na esfera do lar e da moradia, criando casas de acolhida, articulações em rede, experiências para além do espaço doméstico conjugal.

Os trabalhos de Gabriel Pessoto nos fazem lembrar e esquecer. Lembrar carrega consigo as dificuldades do arquivar, algo sempre perturbado pelo seu mal. Esquecer ativamente pode ser lembrar de outra forma, ou aprender a viver com certos fantasmas. É certo que o esquecimento pode ser instrumento poderoso de uma cultura dominante, mas será que é possível pensar uma temporalidade queer capaz de romper com uma noção heteronormativa de tempo? Esta possibilidade me parece ressoar em Ambiente Moderno. Um tempo de recusa, mas de construção. Um imaginário construído, cuja atmosfera nos aponta os afetos, mas sobretudo os desejos, como insustentáveis e em alguma medida impossíveis. Não porque intoleráveis, muito pelo contrário, mas porque em permanente deriva. E me deixo levar por ela, em uma recusa do caminho da conquista e do sucesso quando circunscritos em uma lógica dominante, lógica essa que com seu arquivo, suas imagens, narrativas e partituras restritas sustentam uma forma de mundo que sempre nos parece inevitável, mas é apenas uma forma de lembrar.   

 

Daniela Avellar

Agosto de 2021

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Gabriel Pessoto, Ambiente Moderno, 2022. Livro de artista publicado pela Cactus Editora.